
Como se não bastasse resolveu dizer que era “o mais africano de todos os candidatos”. Inspirado num Obama real, quem sabe achou que seria o melhor argumento para piscar o olho a comunidade de imigrantes africanos em Portugal. Esqueceu-se que em Portugal, tradicionalmente as comunidades de imigrantes não se envolvem em actos eleitorais, a grande maioria ou não estão recenseados ou excluem-se de participar. Culpa precisamente dos sucessivos governos não quererem dar um “passo” no sentido de permitir aos imigrantes o direito de voto.
Ao dizer que “praticamente casei com África, referindo-se naturalmente ao seu casamento com Laura Ferreira, nascida na Guiné Bissau, recordou-me o argumento dos nossos antepassados que achavam que Africa passaria a ser “nossa” se fossemos casando com os locais. Estou convicto de que não foi essa a intenção de Passos Coelho, mas como alguém já terá referido foi um mau principio de conversa para um assunto tão melindroso que é o problema dos imigrantes, principalmente a comunidade Africana que não se sente representada no espectro politico sendo por isso o seu recenseamento muito diminuto, se comparados com os números da comunidade brasileira.
Contudo teve um lado positivo que foi abrir a discussão sobre o direito eleitoral dos imigrantes e se terão de ser encarados como eleitores em futuros actos eleitorais. Mais uma vez a forma retirou a nobreza do conteúdo.
Já só falta pegar no discurso de Luter King e dizer “Eu tive um sonho, um sonho..” de que um dia viria a ser Primeiro-Ministro de Portugal! Esperemos que a inspiração não lhe estrague o sonho, o dele e de muitos portugueses!
Lisboa, 17 de Maio de 2011.
Nuno Serra Pereira

